quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

A Geopolítica do livro "1984" e os rumos da atual sociedade.

"Na vida, não existe nada a temer, mas a entender"
Marie Curie

1984 é um dos livros mais lidos do século XX. Um alerta claro contra a loucura que permeia os tempos modernos. É um livro da Guerra Fria ambientado na Inglaterra, e ainda hoje, mesmo com o fim desse tão conhecido conflito ideológico, continua sendo um alerta contra um grave defeito da natureza humana: o desejo de poder total.

A Geopolítica mundial, retratada no livro, se resume a três superpotências: A Oceania que reúne as Américas, a Inglaterra, a Austrália e a África meridional; a Eurásia com a Europa e a Rússia; e a Lestásia com a China e seus arredores. O resto da Terra é disputado pelas três superpotências, constantemente em guerra.


A Oceania tem esse nome por ser a única das três  a possuir territórios em todos os oceanos. Ela vive sob o jugo totalitário do Partido (Ingsoc), que tem como imagem maior o Grande Irmão. O personagem do Grande Irmão, que tudo via e a todos dominava, representa o poder atrás das teletelas, com rosto estampado em grandes retratos e nas moedas, foi uma clara alusão a Stálin.

No ambiente descrito, a rotina era padronizada, o vocabulário reduzido ao máximo, o ostracismo humano preponderava com reclusão social e morte de sentimentos. Tudo o que parecia permitido era o amor pelo Estado, o ódio pelas nações inimigas e a idolatria pelo Grande Irmão. 


Orwell viveu em uma época em que Hitler e Stalin costumavam disseminar histeria nacional para se livrar de inimigos políticos. Na visão do autor, a televisão era uma arma do partido, expondo e captando imagens. As teletelas divulgavam propaganda, enquanto câmeras internas espiavam as pessoas todo o tempo, para captar pensamentos criminosos: uma atividade ilegal chamada de crime ideia. Ao serem identificadas, as pessoas sumiam sem deixar rastros.


Na organização política interna haviam quatro grandes ministérios: o Ministério da Verdade, responsável pelas alterações e manutenção da “verdade”, de acordo com a conveniência do Partido; o Ministério da Paz, responsável pela guerra, o Ministério do Amor, responsável pelas torturas e lavagens cerebrais naqueles que cometiam a crimideia (questionadores) e o Ministério da Fartura, que se encarregava do racionamento alimentício.

Na sociedade totalitária haviam os membros do partido e o proletariado. Os primeiros ignoram os pobres, dando aos mesmo comida, bebida e livros ruins. Estes livros eram tão ruins que tratavam de ficção pornográfica, sendo escritos automaticamente por máquinas.

Traçando um paralelo com os dias de hoje, é fácil encontrar situações que nos remetam ao livro. Há algum tempo, era realmente impossível acreditar que poderíamos ser monitorados por câmeras o tempo todo e em todo lugar. As informações chegam ao público de forma um tanto dúbia, pois dependendo dos interesses envolvidos, a verdade que nos é passada nem sempre é a verdade dos fatos.

Além de vigiados, nos expomos espontaneamente em redes sociais, com fotos e informações pessoais ou mesmo intimas. vivemos em um mundo onde as imagens valem mais do que as palavras. Os meios de comunicação, em especial a TV, nos "dizem" quem devemos amar ou odiar, e a transformação da língua é outra realidade. No livro, a passagem de antilíngua (ou Inglês normal) para novilíngua consiste em reduzir o vocabulário e eliminar palavras, transformando a comunicação falada ou escrita na mais básica possível.


Basta refletir sobre como as pessoas, hoje, se comunicam em redes sociais com termos super-abreviados, apego à imagem e pouco apreço pela leitura, ligados a uma cultura de massa que distrai e pouco contribui para uma formação humanista (levando em muitos casos a desinformação em plena era da tecnologia da informação).

Superpotências, disputas ideológicas, disseminação do ódio, medo, propaganda, vigilância constante, automatização e desinformação: palavras descritas no livro, publicado em 1948, imaginando um futuro em 1984, mas bem enraizadas na nossa realidade global nos dias atuais.


Recomendo fortemente a leitura desse livro, como ponto de partida para a organização de debates e formação de uma análise questionadora sobre a Geopolítica do mundo atual, os meios de comunicação e as formas de poder.

Um grande abraço e saudações geográficas!